13 outubro

Cultura de Luto

Cultura de Luto

Faleceu ontem (12/10), em Recife, o maestro Rafael Garcia, aos 77 anos. Mas, o seu legado de cinco décadas dedicadas à música clássica nordestina e pernambucana irá viver eternamente. Ele estava internado há três semanas no Real Hospital Português, onde se tratava de um câncer no fígado.

 

Uma trajetória iniciada em 1966, quando conheceu Ana Lúcia Altino, pianista com a qual se casou há 54 anos e teve seis filhos – Rafael, Leonardo, Marcelo, Grácio, Ana e Ricardo – e 12 netos.

 

Nascido no Chile, radicou-se no Brasil e, juntamente com Ana Lúcia, criou o departamento de música da UFPB. O casal criou também a Orquestra Filarmônica Norte/Nordeste, que reunia músicos de Salvador a Belém, e o VIRTUOSI, maior e mais perene festival de música de câmara, com 23 edições realizadas no Recife, Gravatá, Garanhuns e outras cidades do Brasil, além de turnês internacionais passando por aclamadas salas do Chile, Argentina e Uruguai.

 

Aos que desejarem prestar as últimas homenagens, o velório será feito, quinta-feira, 14/10, a partir das 16 horas, na capela central do Cemitério de Santo Amaro, Recife/PE. O seu sepultamento será no mesmo cemitério, na sexta-feira, 15/10, às 11 horas da manhã.

 

Além de ter regido diversas orquestras internacionais, Rafael trabalhou ao lado de Ariano Suassuna e Cussy de Almeida, na formação da Orquestra Armorial. Em 2005, recebeu o justo título de cidadão pernambucano.

 

BRAVO MAESTRO

Não seria exagero em dizer que Rafael Fernando Garcia Saavedra é o mais pernambucano dos chilenos. Ou pelo menos o maior regente de outro país que adotou de coração este estado. Seu amor à música e ao local onde mora há tantos anos o fizeram criar projetos especiais e grandes eventos por aqui difundindo a música de concerto e reunindo grandes nomes sob a sua batuta.

 

A história do maestro com o Brasil atravessa 5 décadas da música clássica nordestina e pernambucana. Se inicia com uma grande história de amor, digna de clássicos do cinema, quando em 1966 num navio rumo a Europa, Rafael conheceu Ana Lúcia Altino, pianista com a qual se casou há 54 anos e teve seis filhos – Rafael, Leonardo, Marcelo, Grácio, Ana e Ricardo e 12 netos. Este amor o fez recusar ofertas de trabalho em orquestras da Suécia e Alemanha para se radicar no Brasil ao lado da esposa no final dos anos 70, para juntos criarem o departamento de música da UFPB.

 

Ao invés de ir ao mundo, Rafael Garcia ajudou a trazer o mundo para cá. Regeu orquestras com exímios instrumentistas de diversas nacionalidades interpretando obras de autores universais de uma forma belíssima. E antes mesmo de construir sua carreira enquanto “o Maestro”, foi Spalla da OSESP, do Ballet Bolshoi, das Orquestras Sinfônicas da Paraíba e do Pernambuco, atuando com grandes regentes como Eleazar de Carvalho, Isaac Karabitchevsky, Antal Dorati, Simon Blech, John Neshling. Trabalhou ao lado de Ariano Suassuna e Cussy de Almeida, na formação da Orquestra Armorial e também como músico de estúdio para a gravadora Fermata, se tornando Spalla de grandes nomes da música popular da época, como Roberto Carlos e Elis Regina com Tom Jobim.

 

Em 1985, o casal coordenou a estréia em terras latinas da Sinfonia dos Dois Mundos, de Dom Hélder Câmara. No ano seguinte, se mudaram para Boston com os seis filhos, quando o segundo filho do casal, Leonardo, venceu o Concurso Jovens Solistas Brasileiros e ganhou uma bolsa para estudar violoncelo nos Estados Unidos. Logo passou a lecionar no New England Conservatory e a reger grandes festivais de música em Lexington e Colorado.

 

Pouco depois de voltar a Recife em 1995, o casal criou a Orquestra Filarmônica Norte/Nordeste que reunia músicos de Salvador a Belém de uma forma voluntária para mostrar a importância da música clássica no Brasil. Em 1998, criaram o VIRTUOSI, o maior e mais perene festival de música de câmara do Pernambuco, com 23 edições realizadas no Recife, Gravatá, Garanhuns e outras cidades do Brasil, além de turnês internacionais passando por aclamadas salas do Chile, Argentina e Uruguai.

 

Seus discursos improvisados no palco fora dos protocolos oficiais dos concertos foram tão fortes quanto sua atuação na música. Não se continha em falar o que precisava ser dito, escancarando a falta de recursos na área cultural mesmo com autoridades na plateia, sem medo de constrangê-los. As palmas que ainda ecoam nos teatros, nas igrejas e nos palcos abertos, foram tanto por sua regência quanto pelo que representa para a cultura local em um estado que década após década ainda não dava o devido valor ao trabalho artístico e educacional das orquestras.

 

Mas nada disso foi em vão. A luta de Rafael foi maior e mais simbólica do que as dificuldades que surgiram e que surgem. Não à toa que até ganhou título de Cidadão Pernambucano pela Assembleia Legislativa em 2005 por seu histórico de serviços prestados. Rafael só se ausentou dos palcos do Virtuosi na sua última edição, realizada este ano de maneira online, devido ao avanço do seu câncer.

 

Esteve a frente de mais de 200 concertos, estreando obras de diversos compositores e graus de dificuldade, o maestro ainda dividiu seu conhecimento com novas gerações através da Orquestra Jovem de Pernambuco em apresentações tanto na capital quanto no interior do estado.

 

É por isso que saudamos o dono de uma trajetória magnífica, que traz a música em seu DNA. Saudamos o violinista, professor, diretor artístico, regente, criador e coordenador de projetos culturais que não se deixou abalar e soube como ninguém arrancar da plateia as mais diversas emoções. Bravo! Bravíssimo Rafael Garcia!

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